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NORMAS DE CONDUTA E LIBERDADE ESPIRITUAL

Do ponto de vista do indivíduo, a solução ideal e absoluta seria uma sociedade que existisse não para si mesma, nem para seu propósito coletivo que passa por cima de tudo, mas para o bem do indivíduo e sua consumação, para uma vida maior e mais perfeita de todos os seus membros. Representando o mais possível o que há de melhor nele e ajudando-o a realizá-lo, a sociedade respeitaria a liberdade de cada um de seus membros e manter-se-ia não pela lei e pela força, mas pelo consentimento livre e espontâneo das pessoas que a constituem. Uma sociedade ideal de um tipo ou de outro não existe em parte alguma e seria muito difícil criá-la, e ainda mais difícil manter sua existência precária enquanto o indivíduo se agarra a seu egoísmo e o considera a razão primordial da existência. Uma dominação geral, mas não completa, do indivíduo pela sociedade, é o modo mais fácil, e é o sistema que a Natureza adotou instintivamente desde o início e mantém em equilíbrio por meio de leis rigorosas, costumes coercivos e uma doutrinação cuidadosa da inteligência ainda subserviente e mal desenvolvida da criatura humana.

Nas sociedades primitivas a vida individual é submetida a costumes e regras comunitárias rígidas e imóveis; essa é a lei do rebanho humano, antiga e pretendendo ser eterna, que tenta sempre mascarar-se de decreto perpétuo do Imperecível, esa dharma sanatanah. Esse ideal não está morto na mente humana; as tendências mais recentes do progresso humano buscam estabelecer uma edição ampliada e suntuosa dessa antiga propensão da vida coletiva para escravizar o espírito humano. Aqui há um sério perigo para o desenvolvimento integral de uma verdade maior e de uma vida maior na terra. Pois os desejos e as buscas livres do indivíduo, por mais egoísticos que sejam, por mais falsos e deformados em suas formas imediatas, contêm, em seus refúgios obscuros, a semente de um desenvolvimento necessário ao todo; suas buscas, seus tropeços, têm por trás uma força que é preciso preservar e transmutar em imagem do ideal divino. Essa força necessita ser aclarada e treinada, mas não deve ser reprimida ou atrelada exclusivamente às pesadas rodas do carro social. O individualismo é tão necessário à perfeição última quanto o poder por trás do espírito de grupo; o sufocamento do indivíduo poderia muito bem ser o sufocamento do deus no homem. E, na realidade, no equilíbrio atual da humanidade há pouco perigo que um individualismo exagerado possa romper o conjunto social. Há um perigo contínuo que a pressão exagerada da massa social, com seu peso opressivo mecânico e ignorante, reprima ou desencoraje de maneira desmedida o desenvolvimento livre do espírito individual. Pois tomado individualmente, o ser humano pode ser aclarado com mais facilidade, ser mais cônscio e aberto às influências luminosas; na massa, ele é ainda obscuro, semicônscio, governado por forças universais que escapam a seu domínio e a seu conhecimento.

Contra o perigo de repressão e imobilização, a Natureza no indivíduo reage. Ela pode reagir mediante uma resistência isolada, que vai da revolta instintiva e brutal do criminoso até a negação completa do solitário e do asceta. Ela pode reagir suscitando uma tendência individualista na ideia social, pode impô-la na consciência da massa e estabelecer um acordo entre as exigências do indivíduo e as da sociedade. Mas um acordo não é uma solução, apenas mitiga a dificuldade e no final aumenta a complexidade do problema e multiplica suas consequências. Um princípio novo, diferente, deve ser chamado, superior aos dois instintos antagonistas, e bastante poderoso para, ao mesmo tempo, ultrapassá-los e reconciliá-los. Deve surgir, acima da lei individual natural que fixa como única regra de conduta a satisfação de nossas necessidades, preferências e desejos pessoais e acima da lei coletiva natural que fixa como regra superior a satisfação das necessidades, preferências e desejos da comunidade como um todo, a noção de uma lei moral ideal que não vise a satisfação de necessidades e desejos, mas que os controle e mesmo os refreie ou anule, no interesse de uma ordem ideal que não seja animal, nem vital, nem física mas mental, uma criação da mente em sua busca da luz e do conhecimento, da norma justa, do movimento justo e da ordem verdadeira. A partir do momento em que essa noção se torna bastante forte no ser humano, ele começa a escapar da absorção na vida material e vital e entra na vida mental; ele passa do primeiro ao segundo grau da ascensão tripla da Natureza. Seus próprios desejos e necessidades são tocados pela luz de um propósito mais elevado; as necessidades da mente, os desejos estéticos, intelectuais e emocionais começam a predominar sobre as exigências da natureza física e vital. Sri Aurobindo


A Síntese do Ioga

Parte I

O Ioga das Obras Divinas

Capítulo VII

Normas de Conduta e Liberdade Espiritual




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