• Sri Aurobindo

LIBERDADE, IGUALDADE, UNIDADE


A meta da religião da humanidade foi formulada no século dezoito por uma espécie de intuição primordial; esta meta era e ainda é recriar a sociedade humana à imagem de três ideias aparentadas: liberdade, igualdade, fraternidade. Nenhuma destas foi realmente conquistada a despeito de todo o progresso que foi alcançado. A liberdade que foi tão veementemente proclamada como um fator essencial do progresso moderno é uma liberdade exterior e mecânica e irreal. A igualdade que tanto se buscou e pela qual tanto se batalhou é igualmente exterior e mecânica e terminará por se mostrar irreal. Quanto à fraternidade, nem mesmo se proclama ser ela um princípio praticável da ordenação da vida e o que é colocado como seu substituto é o exterior e mecânico princípio de associação igualitária ou, no melhor, um companheirismo de trabalho. Isto é porque a ideia da humanidade foi obrigada, numa época intelectual, a mascarar seu verdadeiro caráter de uma religião e uma coisa da alma e do espírito e a apelar à mente vital e física do homem em vez de ao seu ser interior. Ela limitou seu esforço à tentativa de revolucionar as instituições políticas e sociais e a criar tal modificação das ideias e sentimentos da mente comum da humanidade que tornasse praticáveis tais instituições; ela trabalhou muito mais na maquinaria da vida humana e na mente exterior do que sobre a alma da raça. Ela labutou para estabelecer uma liberdade, igualdade e auxílio mútuo nos âmbitos político, social e legal, na base de uma associação igualitária. Contudo, embora esses objetivos sejam de grande importância em seu próprio campo, eles não são a coisa central; eles somente podem ser seguros quando fundamentados em uma mudança da natureza humana interior e do modo de viver interior; em si mesmos eles são de importância apenas como meios para dar um maior escopo e um campo melhor para o desenvolvimento do homem em direção àquela mudança e, uma vez alcançada, como uma expressão exterior da mais vasta vida interior. Liberdade, igualdade, fraternidade são três divindades da alma; elas não podem realmente ser alcançadas através da maquinaria externa da sociedade ou pelo homem enquanto ele viver apenas no ego individual e comunal. Quando o ego clama por liberdade, ele chega a individualismo competitivo. Quando afirma a igualdade, ele chega primeiro a conflito, em seguida a uma tentativa de ignorar as variações da Natureza e, como única maneira de realizá-la com sucesso, ele constrói uma sociedade artificial e maquinal. Uma sociedade que persegue a liberdade como seu ideal é incapaz de alcançar a igualdade; uma sociedade que visa igualdade será obrigada a sacrificar a liberdade. Pois para o ego, falar de fraternidade é falar de algo contrário à sua natureza. Tudo o que ele conhece é a associação para a prossecução de finalidades egoísticas em comum e o máximo a que ele pode chegar é a uma organização mais próxima para a distribuição igualitária de trabalho, produção, consumo e desfrute. E, no entanto, irmandade é a chave real para o tríplice evangelho da ideia de humanidade. A união de liberdade e igualdade somente pode ser alcançada pelo poder da irmandade humana e não pode ser fundamentada em nenhuma outra coisa. Mas a irmandade existe somente na alma e para a alma; ela não pode existir por meio de nenhuma outra coisa. Pois esta irmandade não é uma questão seja de parentesco físico ou de associação vital ou de concordância intelectual. Quando a alma clama por liberdade, é a liberdade do seu autodesenvolvimento, o autodesenvolvimento do divino no homem em todo o seu ser. Quando ela clama por igualdade, o que ela está clamando é pela liberdade para todos igualmente e pelo reconhecimento da mesma alma, a mesma divindade em todos os seres humanos. Quando se esforça pela irmandade, ela está fundando aquela igual liberdade de autodesenvolvimento num objetivo em comum, uma vida em comum, uma irmandade de mente e sentimento fundada sobre o reconhecimento da unidade espiritual interior. Estas três coisas são de fato a natureza da alma; pois liberdade, igualdade, unidade são os atributos eternos do Espírito. É o reconhecimento prático desta verdade, é o despertar da alma no homem e a tentativa de levá-lo a viver a partir de sua alma e não de seu ego, que é o significado interior da religião, e é a isso que a religião da humanidade igualmente precisa chegar antes que ela possa cumprir-se na vida da raça.

SRI AUROBINDO

(Social andPoliticalThought, Centenary Library vol. 15 Pondicherry: Sri AurobindoAshram, 1971, pp 545-547).

DEMOCRACIA NA ÁSIA ...O cristianismo foi uma afirmação da igualdade humana no espírito – uma grande afirmação da unidade do espírito divino no ser humano – que não buscou derrubar os sistemas estabelecidos de governo e da sociedade, mas infundir neles o espírito de irmandade e unidade humanas. Ele foi muito dificultado nesse trabalho, pelo fato de que os povos europeus estavam no estado de transição entre as antigas civilizações arianas da Grécia e de Roma e uma civilização menos avançada e menos aclarada. As nações germânicas estavam ligadas a uma civilização militar que era inteiramente incompatível com os ideais do cristianismo, e a nova religião tornou-se, nas mãos delas, uma coisa quase irreconhecível para a mente asiática que a gerou. ...Quando o sistema feudal foi rompido na Europa pelo surgimento da classe média, os ideais do cristianismo começaram a emergir uma vez mais, mas, dessa vez, a própria igreja cristã tinha se tornado feudalizada, e apresenta-se, então, o espetáculo curioso dos ideais cristãos em luta para estabelecer-se, mediante a destruição da própria instituição que havia sido criada para preservar o cristianismo. Quando os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade foram declarados na época da Revolução Francesa, e a humanidade exigiu que a sociedade os reconhecesse como fundamento de sua estrutura, esses ideais foram associados a uma revolta violenta contra as relíquias do feudalismo e contra a caricatura da religião cristã, que havia se tornado uma parte integral do feudalismo. Isso foi a fraqueza da democracia europeia e a fonte de seu declínio. Ela tomou como motivo os direitos do homem e não o seu dharma*; fez apelo ao egoísmo das classes baixas contra o orgulho das classes altas e fez do ódio e de guerras intestinas aliados permanentes dos ideais cristãos e teceu uma confusão inextricável que é a moderna doença da Europa. ...Os movimentos da Índia do século XIX foram movimentos europeus, eram coloridos com as tonalidades do Ocidente. Em lugar de buscar a força no espírito, eles adotaram os mecanismos e os motivos da Europa...Aquilo que era verdadeiro e eterno nesse passado foi comparado com o que era falso e transitório e a nação estava em perigo de perder sua alma por uma aceitação insensata das aberrações do materialismo europeu. ... Quando o perigo estava maior,um número de grandes espíritos foi enviado para enfrentar a corrente que fluía do Ocidente e chamar a Índia de volta para a sua missão; pois se ela tivesse se desviado do caminho o mundo teria se desviado junto com ela. *dharma (darma) – lei, padrão da Verdade ou regra ou lei de ação; literalmente significa: aquilo que se apodera de todas as coisas e as mantém; concepção indiana de conduta religiosa, social e moral.

SRI AUROBINDO

Bande Mataram – Centenary Library vol. 1. Pondicherry: Sri AurobindoAshram, 1971

A Revolução Francesa foi manifestação do Zeigeist [“espírito da época”], a Revolução Francesa foi expressão da vontade de Deus.

SRI AUROBINDO

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